sábado, 31 de dezembro de 2016

Festival de Teatro de Curitiba 2017


O ano de 2017 vai ser marcante com transformações conturbadas na política e economia depois de um 2016 e difícil na vida de todos os brasileiros. Não é um ano que vem com um horizonte limpo que se possa prever os acontecimentos. E assim o Festival de Teatro de Curitiba continua resistindo a duas décadas com um amortecedor numa estrada cheio de irregularidades. E falar de cultura e classe artística no Brasil soa quase como uma inexistência. 

Este ano estou estreando duas peças de teatro e esperando uma boa receptividade. Cada uma delas apresentada agora em dezembro com um público muito bom. A peça O Urso de Tchekhov teve seus ingressos vendidos todos antecipadamente. Foi um grande prazer ver meus atores recebendo as palmas e ovações. E sei que no Festival de Teatro de Curitiba o público vai ser mais distribuído entre as peças. Mas contando com a colaboração deste público Curitibano que prestigia o Festival e recebendo colegas da classe de outras cidades e estados.  

O Janela para Casmurro e o O Urso de Tchekhov estão prontos para o Festival de Curitiba. Foram muitos ensaios dedicados a uma perfeição. 
Quando falo "perfeição", ele tem um sentido de idealidade. Montei um studio de ensaios para uma comodidade disciplinar e referência. Uma regularidade de ensaios dentro do esperado para atingir um bom padrão. Na dialética da troca de atores para se adequar ao grupo e a proposta da peça sobrou os melhores no palco. Nem sempre o artista se afina a um trabalho diante da complexidade de um mundo vibrante nos seus afazeres. Já tive casos de atores de não se afinarem a uma proposta e na outra se sobressaírem. 

A proposta da idealidade metafísica estética das peças se faz na necessidade de adotar um procedimento de trabalho. Nesta pluralidade de estéticas, mesmo assumindo uma, acabo adotando conceitos mentais de outras para tornar o trabalho eficiente. A preocupação maior foi na quantidade de ensaios tendo como perspectiva o Stanislavski usando a média de 40 ensaios para cumprir a meta. Ele usou 64 na peça Czar Fiodor, 37 em Antigone e 35 em Shylock (GUISBURG, p.38). Mas já visualizando uma segunda parte considerando a mais essencial para a obra de arte na afinação no confronto com o público. Os últimos ensaios servem para aquela superação que "ultrapassa a natureza" (PLOTINO). Ela não pode ser imitação e não pode ser fantasia. Os atores tem que andar sobre nuvens. É isto que o público quer sem ter a noção racional do que viu. Existe um desligamento deste mundo para se inserir no mundo da ação de um refinamento sublime (LONGINO). E ver o Janela para Casmurro inserido num contexto de Machado de Assis foi como ser introduzido na clareza atualizada do seu feito. E O Urso de Tchekhov vem chegando ao momento teatral do delírio dos olhos da forma inusitada. Tenho um grupo de atores que brincam de ser crianças bailando pelo palco. E este foi o meu melhor acerto.

Embora a minha estética para o ano que vem vai mudar deste neoclássico para aquilo que venho adotando como Teatro Antropoceno que minha peça [dadinho... arroz... mamífero] prêmio Myriam Muniz se encaixa perfeitamente. Mas vou continuar com estas peças como repertório. A nossa vontade é continuar com elas em muitas cidades do Brasil. O pessoal quer viajar e não vale a pena montar uma peça e acabar na estreia. São peças fáceis, já pensando no transporte com arranjo de cenário enxuto.

Em janeiro de 2017, começando amanhã ou hoje a meia noite, ficamos na espera das datas e locais das apresentações no Festival de Teatro de Curitiba. Este Festival promete e espero que nossas peças sejam bem vindas para o público. Estamos trabalhando para dar uma obra rica e bela e que o peito fique cheio de alegrias. Modestia a parte, este repertório convence pela qualidade. Então venham nos ver.

Bibliografia: GUISBURG, J. Stanislavski e o Teatro de Arte de Moscou. São Paulo: Perspectiva, 1985. 

Diretor Carlos Jansson

Foto Divulgação: Peça Teatral "Janela para Casmurro"

Foto Divulgação: Peça Teatral "O Urso de Tchekhov"

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Festival de Teatro de Curitiba 2016 - Resumo



Um festival atípico daqueles que nunca se esperaria um resultado tão diferenciado das outras edições. O modelo da Mostra principal mudou e nele se inseriu as apresentações da Ilíada de Homero nas mãos de muitos rapsodos. Neste festival a característica principal foi de espetáculos com poucos atores em cena. E ainda o espetáculo de atores e não de montagens, salvo mostras separadas abordando temas e autores. Mas o destaque o festival ainda é do grande espetáculo com atores renomados que fazem muitos personagens e carregam o sucesso. 

Um dos espetáculos que mais gostei foi criticado por muitos por não entender sua pesquisa. Até um colega do jornalismo falou que não gostou. Mas mesmo assim fui assistir já desconfiado que este seria o meu preferido por ter uma fonte de pesquisa. Dificilmente uma peça boa foge de uma busca séria dos elementos que a compõe. O teatro europeu não é voltado para o herói do palco com sua fama televisiva. É voltado muito mais pelo resultado de um todo, não sendo idealista. 

Existe uma inteligência nos espetáculos e não é pela elitização dos trabalhos. Alguns conseguem ampliar o resultado e outros não tem nenhum talento para mostrar. Teatro de consciência é um xarope só, com um sermão filosófico de vida prática no estilo religioso. Tudo bem que o mito tem um viés religioso nos gregos. Mas o sermão de consciência foge da individuação querendo uma universalidade dos temas. E a ingenuidade dos assuntos tratados é de uma inesgotável falta de conhecimento do que estão falando. Se for palavras envolvendo uns minutos bem colocado pela capacidade de alteridade tudo bem. Mas querer dar uma hora de sermão é muita coisa. E não chegam nem perto da maiêutica. Não há debate e sim baldes de idiotices sendo despejados na nossa cabeça como se não soubéssemos. Tudo bem que tenho uma formação em filosofia e talvez para alguns até sirva. Mas não são elaborados o suficiente como se quisessem dizer algo novo que milhares de anos atrás um filósofo já abordou. E se abordar tem que ter o conhecimento destes para abranger o conteúdo.  Espero um ano que vem melhor. Este não foi muito bom. Muita falação e pouca ação em cena. 

Mateus da Lelé Bicuda

quinta-feira, 31 de março de 2016

Curadoria do Novo Festival


Com certeza o festival ganhou nova cara com uma interação que aparenta uma alteridade. E sendo o primeiro os acertos devem ser postos na mesa na sequência de uma diversidade mais florescente. Como na outra os espetáculos contavam com um dispositivo de grandes nomes de relevo na cênicas televisiva midiática ao sabor popular. E nesta pelo visto a tendência foi dar um passo atrás coletando os talentos escondidos. Não que nas versões anteriores elas não se fizessem presente. E a reação para um festival mais equilibrado não vem só da curadoria é claro, com elementos evidentes e outros não muito visíveis. 

Hoje assisti um espetáculo do Uruguai com o nome de Tebas Land que achei difícil entender mesmo a língua sendo familiar. Não é um espetáculo com dialeto e permanece num prólogo interminável. Méritos para a Mostra do festival com sua capacidade regional e ao mesmo tempo um equívoco diante da língua já que espetáculos internacionais dentro de uma dimensão globalizante suprimem a palavra. E acaba sendo um problema também diante da falta da palavra que componha uma musicalidade vogal.
Um teatro nominalista não ganha garantias e consistência no meio cênico. Nomeando de "nominalismo" pela vertente filosófica quando as coisas ganham palavras e só dela o fenômeno se realiza. Os analíticos de Frankfurt recuaram diante da possibilidade. Ficando com os internacionais nos seus modelos internacionais de apresentação, com uma curadoria tendo a sensibilidade na escolha para não incompatibilizar. Sem tirar o mérito da presença de nossos artistas vizinhos se realizando no nosso meio. 

Não estamos em épocas elitistas diante do panorama brasileiro. Então não se sustenta certos ímpetos de grupos que não estão abertos a diversidade do festival. Existe em todo o lugar e devem ser combatidos. Aquilo que aparenta levar a um poder de grupo elitizado com certeza leva a um resíduo deteriorante da estrutura. Geralmente são aqueles que patinam numa linearidade e se afundam nas tendências nauseantes como se fosse um charme inovador. Está infestação é como a zica corroendo a saúde dos viventes artísticos. Dizem coisas que acabam não dizendo nada numa pose de grande cacique. É melhor uma inércia do que embarcar numa canoa furada desta. 


Espetáculo do Treat Serpa no Teatro Rodrigo D'Oliveira

domingo, 27 de março de 2016

Eles Não Usam Tênis Naique


Um belo espetáculo de um grupo ambientado numa proposta de teatro de reflexão próprio da vivência do Rio de Janeiro. Marcado por diálogos conscientes carregados por virtudes arrolados na moral. Lembrou o Wagner Moura citado na peça num momento engraçado com muitas risadas com uma introdução espetacular que logo após chocou pela continuidade do que veria ser a essência da peça com a cobrança de restabelecer o dialeto. 

Uma das coisas do teatro grego perdido foi sua poética lírica que envolvia os instrumentos, o coro e principalmente o dialeto das muitas cidades que dava o tom da poética na tragédia. A sonoridade das palavras tinha muito da riqueza de cada povo que era usada no texto. Vi a possibilidade já que o Rio de Janeiro tem um modo carioques de pronunciar as palavras. É claro que com um texto pensado nas entonações melódicas e rítmicas. Estou falando isto porque a peça usou e ouçou fazer isto. E a beleza dela foi isto, com um público que vibrou na proposta. Mas acho que deveriam acreditar mais no dialeto com medo que o consciente e racional ficasse comprometido. Investir mais no sotaque criado pelo cinema nos Mouras sem se importar com o consciente porque dela vem toda a energia para o total. Com o cuidado de não ser um carioques com os "is" em final de palavras já que o resto do Brasil abomina a esperteza carioca. 

A preocupação em certo momento era se a peça seria só consciência já que é de reflexão. Com umas marcações criativas podendo ter uma ou duas menores a mais. Isto puxa pela falta de um inconsciente num cenário de vinho derramando sangue. Uma falta presente instintiva na integra que transbordou no final. Menos mau já que completou o circuíto sem deixar vazio. Isto porque falar de violência sem a irracionalidade e o instintivo seria uma falta feia. Por isto o dialeto tem que estar presente com muito mais vigor. Ela é o filtro que enverniza toda a peça e continuidade da introdução. 

Uma cobrança desta é própria do Festival de Curitiba já que o espetáculo convidado está inserido num outro patamar de público. Um ganho para o Festival na diversidade de temas que nem seria próprio dela num caminho para o clube dos Globais numa verte única de inspiração e purpurina. As vezes no declive das coisas se descobre oportunidades de rejuvenescer com obras não cabíveis e acabam sendo uma grande descoberta de novos artistas tão espetaculares quanto. 

Uma das coisas costumeiras é buscar saber qual foi a parte importante para o público na sua empolgação de explicar a peça no final. E passando pela porta de saída ouvi de um casal que ela disse que gostou muito daqueles por trás fazendo barulho. O público é mesmo diversificado em Curitiba e as vezes chato como eu. E este barulho dito foi de uma lírica que estremece as muralhas gregas de um primor que carrega a obra aos deuses. O grande mérito deste grupo é saber carregar este instrumento que numa harmonia com o dialeto gastaria os ouvidos. Parabéns Cia Marginal. Vocês são surpreendentes e merecem com louvor os aplausos. 

Realização Cia Marginal - Rio de Janeiro
Direção: Isabel Penoni
Texto: Marcia Zanelatto
Direção Musical: Thomas Harres
Elenco: Geandra Nobre, Jaqueline Andrade, Phellipe Azevedo, Rodrigo Souza e Walace Lino.

Foto: Ratão Diniz

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Festival de Teatro de Curitiba 2016

Pelo que percebi num primeiro olhar sobre o guia do Festival de Teatro de Curitiba, com certeza ele será o mais diferente de todos. Uma programação muito voltada para as performances e com pouco elenco. Seria o momento que Nietzsche iria para a Itália. Com dois tipos de performance que gosto; no Teatro de Rua e aqueles contemporâneos com o consciente no palco junto com as parafernálias.

O Festival vem dando prioridade para a diversidade de gênero, e neste junto com o contemporâneo se tornou uma química como marca da Mostra principal. Não estou contando com a Ilíada.
No todo senti que as peças do Fringe levou vantagem nos espetáculos sem falar dos outros que não cheguei a olhar. Com o Fringe sendo o melhor representante do teatro tradicional com o jogo do ator.

Em algumas coisas o Festival corre risco por arriscar na imposição de alguns valores que não se encaixa na facilidade que o público procura. É uma aposta arriscada e muitos podem não gostar. Mas isto é um mero detalhe de gosto já que a continuidade do Festival é que importa para Curitiba num dos únicos fomentadores das artes com visibilidade nacional.

O espetáculo que mais me instigou quando bati os olhos, pelo seu diferencial, foi os "Mordedores" da Cia Improvável da Marcela Levi e Lucía Russo da Mostra principal. Tem algo da sensibilidade numa coisa animalesca social. O social que visei é numa proposta que morder pode ser uma linguagem de aproximação e com um otimismo nas relações humanas. Vai que de repente é a essência do Thomas Hobbes e sendo contemporâneo e performático a lógica pode não valer. Amadurecendo o olhar vão ter muitos outros espetáculos que vou estar vibrando pela descoberta. 

Bom Festival e que Dionísio se embriague nos espíritos incorporados.

"Mordedores" da Cia Improvável