O resultado da minha obra
trabalhando com Machado de Assis já inserindo um conceito sobre seus feitos
ligados aos meus. De certa forma sendo aquilo que ele esperava do seu teatro indo para o palco e acabei concluindo alguns pontos fazendo isto.
A peça “Janela para Casmurro” é
uma peça que venho montando em várias situações com grupos de pessoas variadas.
E o amadurecimento numa hierarquia se deu e se dará com algumas
revelações sobre a sua poética.
O objeto são seus personagens, ou uma atriz,
ou um ente de cena, e mesmo o histórico do Machado de Assis. Sem se prender
na redundância de como ele é conhecido vem a tona do mergulho daquilo que mesmo
ele não compreendia no seu fazer. Bastando lembrar as suas diferenças, por
exemplo, do Arthur Azevedo no seu feito. Descobri que ele tinha uma grande
admiração pelo Anton Tchekhov e a peça “Lições de Botânica” evidenciando isto, nas
semelhanças das falas.
Um dos problemas surgidos em
minhas montagens foi a apropriação do modo de se falar da época do Machado de
Assis. Principalmente por ser muito prolixo e pela formalidade do seu tempo que
exigia uma elitização das letras. E minha conclusão foi no sentido de não
priorizar a sua época já que ele como um ser culto exigia um rompimento deste
tempo bebendo recursos em outras línguas, linguagens e escolas, e por outro lado buscando a identidade brasileira. Dei mais ênfase a dinâmica dos seus personagens e gesto para as
verdades desocultada se fizesse presente na sua obra. E como falei, isto vem de uma não
compreensão dele, vindo desta argumentação posterior. A “obra” tem que se revelar como verdade sem se sobressair a característica histórica
enraizada. Tanto que se fosse perderia o equivalente do valor de pedestal do
Machado de Assis no atualizado.
Este texto é o resultado daquilo
que me foi revelado na desocultação diante das tantas vezes lapidando
personagens e cenas da peça em ensaios e tendo o despertar gratificante na ultima apresentação do
“Janela para Casmurro” em dezembro de 2016 no Tuc – Teatro Universitário de
Curitiba. Nele senti a "presentificação" do Machado de Assis. Coisa que
nunca foi um objetivo chegar a isto voltado a ele. Palavra que se confunde com
a desocultação levando a aquilo que talvez os gregos sentiam nas dionisíacas. E
algumas coisas aconteceram para chegar nisto durante a montagem. Uma delas é a
capacidade dos meus atores. O ator Adriano Gouvêa vinha num ritmo de ensaio que a
cada ensaio ele tratava o personagem tentando romper o ente fazendo dele um
ser. E como ele fazia isto? Ele tinha a marcação muito consumida que propiciou
uma superação e dava vida ao personagem funcionando com uma certa liberdade.
Claro que explicar isto acabaria impondo algo fora da mediana. Não é algo que
se explica e sim que se sente. E a própria tentativa de entender pode perturbar
o feito. Todos já perceberam que as vezes racionalizar pode se perder a
ingenuidade. Se é que a palavra “ingenuidade” cabe nesta colocação. E
no dia da apresentação uma das minhas regras para o dia foi retirar qualquer
excesso do que a gente vinha fazendo nos ensaios, como este que acabei de
explicar. Fazer fácil seria a melhor forma de ser holístico e fazer do tempo da
peça algo de instantes resolvidos para dar mais segurança na ação. Mas daí
aconteceu que aquela vida no modo fácil estava presente em cena. Todas
as peças se mexeram com qualidade no palco. E foi ali que vi o Machado de Assis
abençoando a aura da obra. O sublime era aquilo, de valores que não se encaixam
em nenhuma referência.
Como eu navego nisto eu quero
lembrar que este texto tem termos de dificuldades ocultas para uns, que devem
passar por cima sem tentar absorver, e num todo ele revela com simplicidade o
que foi dito. Se um dia você vier a saber o que estou falando vai ter o mesmo
entendimento de quando não sabia a abrangência dele. O conhecimento é como
colocar tijolos sobre tijolos para compor um grande edifício, só que daí
descobre que com ingenuidade vem e derruba tudo por conseguir chegar também nas alturas, e
não deixa de ser um conhecimento comum a tal alternativa sobre a inocência. O melhor é as duas
coisas andarem juntas num casamento perfeito na construção do ser.
O texto envolve arte e filosofia
e um pouco de estética já que não desvinculo uma da outra. O relatório de um
tempo único e sublime se é que se define isto bem nisto.
Carlos Jansson
"Janela para Casmurro" - Festival de Teatro de Curitiba.
Na Secretaria da Cultura/SEEC - Auditório Brasílio Itiberê.
Endereço: Rua Ébano Pereira, 240 - Centro (Próximo ao Largo da Ordem)
Dias e horas: 04 e 05/04 as 20h30.
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