sábado, 4 de fevereiro de 2017

Desocultação do Machado de Assis


O resultado da minha obra trabalhando com Machado de Assis já inserindo um conceito sobre seus feitos ligados aos meus. De certa forma sendo aquilo que ele esperava do seu teatro indo para o palco e acabei concluindo alguns pontos fazendo isto.
A peça “Janela para Casmurro” é uma peça que venho montando em várias situações com grupos de pessoas variadas. E o amadurecimento numa hierarquia se deu e se dará com algumas revelações sobre a sua poética.
O objeto são seus personagens, ou uma atriz, ou um ente de cena, e mesmo o histórico do Machado de Assis. Sem se prender na redundância de como ele é conhecido vem a tona do mergulho daquilo que mesmo ele não compreendia no seu fazer. Bastando lembrar as suas diferenças, por exemplo, do Arthur Azevedo no seu feito. Descobri que ele tinha uma grande admiração pelo Anton Tchekhov e a peça “Lições de Botânica” evidenciando isto, nas semelhanças das falas.
Um dos problemas surgidos em minhas montagens foi a apropriação do modo de se falar da época do Machado de Assis. Principalmente por ser muito prolixo e pela formalidade do seu tempo que exigia uma elitização das letras. E minha conclusão foi no sentido de não priorizar a sua época já que ele como um ser culto exigia um rompimento deste tempo bebendo recursos em outras línguas, linguagens e escolas, e por outro lado buscando a identidade brasileira. Dei mais ênfase a dinâmica dos seus personagens e gesto para as verdades desocultada se fizesse presente na sua obra. E como falei, isto vem de uma não compreensão dele, vindo desta argumentação posterior. A “obra” tem que se revelar como verdade sem se sobressair a característica histórica enraizada. Tanto que se fosse perderia o equivalente do valor de pedestal do Machado de Assis no atualizado.
Este texto é o resultado daquilo que me foi revelado na desocultação diante das tantas vezes lapidando personagens e cenas da peça em ensaios e tendo o despertar gratificante na ultima apresentação do “Janela para Casmurro” em dezembro de 2016 no Tuc – Teatro Universitário de Curitiba. Nele senti a "presentificação" do Machado de Assis. Coisa que nunca foi um objetivo chegar a isto voltado a ele. Palavra que se confunde com a desocultação levando a aquilo que talvez os gregos sentiam nas dionisíacas. E algumas coisas aconteceram para chegar nisto durante a montagem. Uma delas é a capacidade dos meus atores. O ator Adriano Gouvêa vinha num ritmo de ensaio que a cada ensaio ele tratava o personagem tentando romper o ente fazendo dele um ser. E como ele fazia isto? Ele tinha a marcação muito consumida que propiciou uma superação e dava vida ao personagem funcionando com uma certa liberdade. Claro que explicar isto acabaria impondo algo fora da mediana. Não é algo que se explica e sim que se sente. E a própria tentativa de entender pode perturbar o feito. Todos já perceberam que as vezes racionalizar pode se perder a ingenuidade. Se é que a palavra “ingenuidade” cabe nesta colocação. E no dia da apresentação uma das minhas regras para o dia foi retirar qualquer excesso do que a gente vinha fazendo nos ensaios, como este que acabei de explicar. Fazer fácil seria a melhor forma de ser holístico e fazer do tempo da peça algo de instantes resolvidos para dar mais segurança na ação. Mas daí aconteceu que aquela vida no modo fácil estava presente em cena. Todas as peças se mexeram com qualidade no palco. E foi ali que vi o Machado de Assis abençoando a aura da obra. O sublime era aquilo, de valores que não se encaixam em nenhuma referência.
Como eu navego nisto eu quero lembrar que este texto tem termos de dificuldades ocultas para uns, que devem passar por cima sem tentar absorver, e num todo ele revela com simplicidade o que foi dito. Se um dia você vier a saber o que estou falando vai ter o mesmo entendimento de quando não sabia a abrangência dele. O conhecimento é como colocar tijolos sobre tijolos para compor um grande edifício, só que daí descobre que com ingenuidade vem e derruba tudo por conseguir chegar também nas alturas, e não deixa de ser um conhecimento comum a tal alternativa sobre a inocência. O melhor é as duas coisas andarem juntas num casamento perfeito na construção do ser.

O texto envolve arte e filosofia e um pouco de estética já que não desvinculo uma da outra. O relatório de um tempo único e sublime se é que se define isto bem nisto.

Carlos Jansson

"Janela para Casmurro" - Festival de Teatro de Curitiba.
Na Secretaria da Cultura/SEEC - Auditório Brasílio Itiberê.
Endereço: Rua Ébano Pereira, 240 - Centro (Próximo ao Largo da Ordem)
Dias e horas: 04 e 05/04 as 20h30.

Pontal do Sul

Comentários
0 Comentários

Nenhum comentário:

Postar um comentário