quinta-feira, 31 de março de 2016

Curadoria do Novo Festival


Com certeza o festival ganhou nova cara com uma interação que aparenta uma alteridade. E sendo o primeiro os acertos devem ser postos na mesa na sequência de uma diversidade mais florescente. Como na outra os espetáculos contavam com um dispositivo de grandes nomes de relevo na cênicas televisiva midiática ao sabor popular. E nesta pelo visto a tendência foi dar um passo atrás coletando os talentos escondidos. Não que nas versões anteriores elas não se fizessem presente. E a reação para um festival mais equilibrado não vem só da curadoria é claro, com elementos evidentes e outros não muito visíveis. 

Hoje assisti um espetáculo do Uruguai com o nome de Tebas Land que achei difícil entender mesmo a língua sendo familiar. Não é um espetáculo com dialeto e permanece num prólogo interminável. Méritos para a Mostra do festival com sua capacidade regional e ao mesmo tempo um equívoco diante da língua já que espetáculos internacionais dentro de uma dimensão globalizante suprimem a palavra. E acaba sendo um problema também diante da falta da palavra que componha uma musicalidade vogal.
Um teatro nominalista não ganha garantias e consistência no meio cênico. Nomeando de "nominalismo" pela vertente filosófica quando as coisas ganham palavras e só dela o fenômeno se realiza. Os analíticos de Frankfurt recuaram diante da possibilidade. Ficando com os internacionais nos seus modelos internacionais de apresentação, com uma curadoria tendo a sensibilidade na escolha para não incompatibilizar. Sem tirar o mérito da presença de nossos artistas vizinhos se realizando no nosso meio. 

Não estamos em épocas elitistas diante do panorama brasileiro. Então não se sustenta certos ímpetos de grupos que não estão abertos a diversidade do festival. Existe em todo o lugar e devem ser combatidos. Aquilo que aparenta levar a um poder de grupo elitizado com certeza leva a um resíduo deteriorante da estrutura. Geralmente são aqueles que patinam numa linearidade e se afundam nas tendências nauseantes como se fosse um charme inovador. Está infestação é como a zica corroendo a saúde dos viventes artísticos. Dizem coisas que acabam não dizendo nada numa pose de grande cacique. É melhor uma inércia do que embarcar numa canoa furada desta. 


Espetáculo do Treat Serpa no Teatro Rodrigo D'Oliveira

domingo, 27 de março de 2016

Eles Não Usam Tênis Naique


Um belo espetáculo de um grupo ambientado numa proposta de teatro de reflexão próprio da vivência do Rio de Janeiro. Marcado por diálogos conscientes carregados por virtudes arrolados na moral. Lembrou o Wagner Moura citado na peça num momento engraçado com muitas risadas com uma introdução espetacular que logo após chocou pela continuidade do que veria ser a essência da peça com a cobrança de restabelecer o dialeto. 

Uma das coisas do teatro grego perdido foi sua poética lírica que envolvia os instrumentos, o coro e principalmente o dialeto das muitas cidades que dava o tom da poética na tragédia. A sonoridade das palavras tinha muito da riqueza de cada povo que era usada no texto. Vi a possibilidade já que o Rio de Janeiro tem um modo carioques de pronunciar as palavras. É claro que com um texto pensado nas entonações melódicas e rítmicas. Estou falando isto porque a peça usou e ouçou fazer isto. E a beleza dela foi isto, com um público que vibrou na proposta. Mas acho que deveriam acreditar mais no dialeto com medo que o consciente e racional ficasse comprometido. Investir mais no sotaque criado pelo cinema nos Mouras sem se importar com o consciente porque dela vem toda a energia para o total. Com o cuidado de não ser um carioques com os "is" em final de palavras já que o resto do Brasil abomina a esperteza carioca. 

A preocupação em certo momento era se a peça seria só consciência já que é de reflexão. Com umas marcações criativas podendo ter uma ou duas menores a mais. Isto puxa pela falta de um inconsciente num cenário de vinho derramando sangue. Uma falta presente instintiva na integra que transbordou no final. Menos mau já que completou o circuíto sem deixar vazio. Isto porque falar de violência sem a irracionalidade e o instintivo seria uma falta feia. Por isto o dialeto tem que estar presente com muito mais vigor. Ela é o filtro que enverniza toda a peça e continuidade da introdução. 

Uma cobrança desta é própria do Festival de Curitiba já que o espetáculo convidado está inserido num outro patamar de público. Um ganho para o Festival na diversidade de temas que nem seria próprio dela num caminho para o clube dos Globais numa verte única de inspiração e purpurina. As vezes no declive das coisas se descobre oportunidades de rejuvenescer com obras não cabíveis e acabam sendo uma grande descoberta de novos artistas tão espetaculares quanto. 

Uma das coisas costumeiras é buscar saber qual foi a parte importante para o público na sua empolgação de explicar a peça no final. E passando pela porta de saída ouvi de um casal que ela disse que gostou muito daqueles por trás fazendo barulho. O público é mesmo diversificado em Curitiba e as vezes chato como eu. E este barulho dito foi de uma lírica que estremece as muralhas gregas de um primor que carrega a obra aos deuses. O grande mérito deste grupo é saber carregar este instrumento que numa harmonia com o dialeto gastaria os ouvidos. Parabéns Cia Marginal. Vocês são surpreendentes e merecem com louvor os aplausos. 

Realização Cia Marginal - Rio de Janeiro
Direção: Isabel Penoni
Texto: Marcia Zanelatto
Direção Musical: Thomas Harres
Elenco: Geandra Nobre, Jaqueline Andrade, Phellipe Azevedo, Rodrigo Souza e Walace Lino.

Foto: Ratão Diniz