Um belo espetáculo de um grupo ambientado numa proposta de teatro de reflexão próprio da vivência do Rio de Janeiro. Marcado por diálogos conscientes carregados por virtudes arrolados na moral. Lembrou o Wagner Moura citado na peça num momento engraçado com muitas risadas com uma introdução espetacular que logo após chocou pela continuidade do que veria ser a essência da peça com a cobrança de restabelecer o dialeto.
Uma das coisas do teatro grego perdido foi sua poética lírica que envolvia os instrumentos, o coro e principalmente o dialeto das muitas cidades que dava o tom da poética na tragédia. A sonoridade das palavras tinha muito da riqueza de cada povo que era usada no texto. Vi a possibilidade já que o Rio de Janeiro tem um modo carioques de pronunciar as palavras. É claro que com um texto pensado nas entonações melódicas e rítmicas. Estou falando isto porque a peça usou e ouçou fazer isto. E a beleza dela foi isto, com um público que vibrou na proposta. Mas acho que deveriam acreditar mais no dialeto com medo que o consciente e racional ficasse comprometido. Investir mais no sotaque criado pelo cinema nos Mouras sem se importar com o consciente porque dela vem toda a energia para o total. Com o cuidado de não ser um carioques com os "is" em final de palavras já que o resto do Brasil abomina a esperteza carioca.
A preocupação em certo momento era se a peça seria só consciência já que é de reflexão. Com umas marcações criativas podendo ter uma ou duas menores a mais. Isto puxa pela falta de um inconsciente num cenário de vinho derramando sangue. Uma falta presente instintiva na integra que transbordou no final. Menos mau já que completou o circuíto sem deixar vazio. Isto porque falar de violência sem a irracionalidade e o instintivo seria uma falta feia. Por isto o dialeto tem que estar presente com muito mais vigor. Ela é o filtro que enverniza toda a peça e continuidade da introdução.
Uma cobrança desta é própria do Festival de Curitiba já que o espetáculo convidado está inserido num outro patamar de público. Um ganho para o Festival na diversidade de temas que nem seria próprio dela num caminho para o clube dos Globais numa verte única de inspiração e purpurina. As vezes no declive das coisas se descobre oportunidades de rejuvenescer com obras não cabíveis e acabam sendo uma grande descoberta de novos artistas tão espetaculares quanto.
Uma das coisas costumeiras é buscar saber qual foi a parte importante para o público na sua empolgação de explicar a peça no final. E passando pela porta de saída ouvi de um casal que ela disse que gostou muito daqueles por trás fazendo barulho. O público é mesmo diversificado em Curitiba e as vezes chato como eu. E este barulho dito foi de uma lírica que estremece as muralhas gregas de um primor que carrega a obra aos deuses. O grande mérito deste grupo é saber carregar este instrumento que numa harmonia com o dialeto gastaria os ouvidos. Parabéns Cia Marginal. Vocês são surpreendentes e merecem com louvor os aplausos.
Realização Cia Marginal - Rio de Janeiro
Direção: Isabel Penoni
Texto: Marcia Zanelatto
Direção Musical: Thomas Harres
Elenco: Geandra Nobre, Jaqueline Andrade, Phellipe Azevedo, Rodrigo Souza e Walace Lino.
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| Foto: Ratão Diniz |
